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Prosa & Cozinha - Por Fernando Bicudo Quinta-feira, 01 de Outubro de 2026, 10:11 - A | A

Quinta-feira, 01 de Outubro de 2026, 10h:11 - A | A

PROSA & COZINHA

Rei do Filet: um século de São Paulo servido à mesa

De Esplanadinha a Filé do Moraes, a casa que atravessou gerações preserva uma das receitas mais tradicionais da gastronomia paulistana.

Fernando Bicudo

São Paulo mudou muito desde 1914. Mudaram as ruas, os prédios, os hábitos, a maneira de viver a cidade e até a forma de fazer gastronomia. Mas, no centro paulistano, uma receita continua contando parte dessa história à mesa.

É o filé do Rei do Filet, casa que nasceu há mais de um século com outro nome: Esplanadinha. O estabelecimento foi fundado em 1914, na Rua Conselheiro Crispiniano, pelos portugueses Salvador Domingos e Manoel Pereira Vidal. Ali, perto do antigo Hotel Esplanada e do Theatro Municipal, começava uma história que atravessaria gerações.

Naquela época, depois dos espetáculos, era comum que paulistanos e visitantes procurassem um lugar para comer. O Esplanadinha entrou nesse roteiro noturno com uma receita simples e marcante: um filé alto, dourado por fora e ainda vermelho por dentro, acompanhado de alho, batatas fritas e agrião.

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E foi justamente na chapa que surgiu o nome que acabaria se tornando sinônimo da casa.

Moraes era o chapeiro responsável pelo preparo da carne. O modo de fazer, sempre com o filé alto e malpassado, conquistou os frequentadores a ponto de o apelido do cozinheiro se transformar na própria identidade do restaurante.

Em 1929, a casa chegou à Praça Júlio Mesquita, endereço que permanece associado ao restaurante até hoje. Naquele período, a região central era um dos grandes pontos da vida noturna de São Paulo. Boêmios, artistas, intelectuais e personagens da cidade passaram a fazer parte da história do lugar.

Entre os frequentadores lembrados pelas fontes históricas estão Monteiro Lobato e Adoniran Barbosa. O sambista, aliás, tinha no filé ao alho e óleo do Moraes um de seus pratos conhecidos.

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Existe até uma história que liga Adoniran ao famoso “Trem das Onze”: a lenda diz que o samba teria sido composto no restaurante. A própria Folha de S.Paulo, ao recontar a história da casa, registra a versão como uma tradição difícil de comprovar. O que está documentado é a relação de Adoniran com o restaurante e seu apreço pelo filé servido ali.

O tempo passou, a cidade se transformou e o restaurante também atravessou mudanças. O nome Rei do Filet passou a identificar oficialmente a casa, que manteve como principal referência o filé-mignon preparado à moda tradicional.

A receita que atravessou o século continua baseada em poucos elementos: um corte alto de filé, alho crocante, batatas e agrião. Hoje, o cardápio apresenta diferentes versões do filé, mas a preparação tradicional permanece como uma espécie de assinatura da casa.

Em 2014, quando completou cem anos, o restaurante foi novamente lembrado como uma das casas centenárias de São Paulo. Uma década depois, a Prefeitura paulistana continua relacionando o Rei do Filet entre os estabelecimentos tradicionais de valor cultural da cidade.

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É interessante pensar que um prato aparentemente tão simples tenha conseguido atravessar tantas transformações.

O filé não precisa de grandes invenções. Precisa de um bom corte, de uma chapa quente, do alho preparado no ponto certo e daquela combinação que ficou na memória de quem frequentou a casa ao longo das décadas.

Talvez seja justamente aí que esteja a força do Rei do Filet.

Num tempo em que restaurantes são criados para acompanhar tendências que mudam rapidamente, a casa escolheu continuar contando sua história pela permanência. O endereço mudou de época, a cidade ganhou novos sabores e o centro de São Paulo passou por inúmeras transformações, mas aquele filé alto, cercado de alho, batatas e agrião, continua reconhecível.

Mais do que uma refeição, ele se tornou uma pequena fotografia de uma São Paulo que já não existe da mesma maneira, mas que ainda pode ser lembrada quando o prato chega à mesa.

NOTA DO COLUNISTA
O que mais me chama a atenção no Rei do Filet é a capacidade de permanecer. São mais de cem anos de história, uma cidade que mudou completamente ao redor e uma receita que continua sendo reconhecida por quem chega à mesa. É um pedaço da história gastronômica de São Paulo que continua vivo, e isso, por si só, já merece ser contado.

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Fernando Bicudo
Publicitário, colunista e curador gastronômico. Em Prosa & Cozinha, mapeia experiências, tendências e endereços que ajudam a entender a gastronomia brasileira contemporânea.

 

 
 

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