Tenho acompanhado, nos últimos dias, algumas discussões sobre influencers.
Tem gente criticando.
Tem gente defendendo.
Tem estabelecimento dizendo que não quer mais receber influencer.
Tem influencer que trabalha de uma maneira.
Outro trabalha de outra.
Um faz permuta.
Outro cobra.
Outro recebe um convite.
Outro paga para conhecer o lugar.
E eu fico pensando:
Será que existe uma maneira certa de trabalhar?
Eu não tenho essa resposta.
E, sinceramente, acho que não preciso ter.
Cada profissional encontrou o seu jeito de fazer o seu trabalho.
Cada estabelecimento sabe o que pode, o que quer e o que considera interessante para o seu negócio.
Se existe um acordo entre os dois, se os dois sabem o que estão fazendo e se os dois ficam satisfeitos com aquela relação, para mim está tudo certo.
Porque trabalho é trabalho.
E toda forma honesta de trabalho merece respeito.
Eu também encontrei o meu jeito.
Quando comecei, eu ainda escrevia.
Já gostava de internet e já tinha alguns milhares de pessoas me acompanhando de forma orgânica.
Mas ninguém me conhecia fazendo vídeos.
Então comecei do jeito que dava.
Eu pagava para conhecer os lugares.
Pagava minha conta.
Produzia.
Escrevia.
Fotografava.
Tentava descobrir como transformar aquilo em conteúdo.
Depois vieram os vídeos.
Vieram os convites.
Vieram os trabalhos.
E, aos poucos, fui conquistando o direito de escolher onde queria estar.
Nada aconteceu de uma hora para outra.
Foi trabalho.
Foi dinheiro investido.
Foi tempo.
Foi aprendizado.
Foi erro.
Foi acerto.
E, principalmente, foi muita vontade de fazer dar certo.
Mas existe uma coisa que nunca mudou.
Eu nunca quis ser crítico.
Nunca foi esse o meu sonho.
Eu não quero ser a pessoa que entra em um lugar para dizer ao público o que ele deve ou não deve comer.
Eu quero outra coisa.
Quero descobrir.
Quero experimentar.
Quero conversar.
Quero mostrar.
Quero levar as pessoas comigo.
É quase como dizer:
"Eu encontrei uma coisa legal. Vem descobrir comigo."
Talvez esse seja o meu jeito de fazer entretenimento.
E eu gosto disso.
Gosto quando entro em um lugar que ninguém conhece e encontro uma história.
Gosto quando descubro uma pessoa que está começando.
Gosto quando vou a um estabelecimento grande e percebo que existe alguma coisa ali que vale a pena mostrar.
Porque tamanho nunca foi o que mais me interessou.
O que me interessa é a história.
É aquilo que existe por trás da porta.
É a comida.
É quem faz.
É quem está tentando.
É a experiência.
E, principalmente, é o que eu posso levar para quem está do outro lado da tela.
Por isso, quando vejo alguém dizendo que influencer é tudo igual, eu penso que talvez seja justamente aí que esteja o nosso maior erro.
Não somos.
Assim como publicitário não é tudo igual.
Médico não é tudo igual.
Advogado não é tudo igual.
Restaurante não é tudo igual.
Cada profissional encontra seu caminho.
Cada um estabelece seu preço.
Cada um escolhe seus clientes.
Cada um decide o que faz sentido para sua vida e para o seu trabalho.
E tudo bem.
Eu não preciso trabalhar como outro influencer trabalha.
E ele também não precisa trabalhar como eu trabalho.
O importante é que exista respeito, clareza e profissionalismo na relação.
Porque, quando um estabelecimento contrata alguém para mostrar o seu trabalho, existe uma troca.
E quando os dois lados entendem essa troca e saem satisfeitos, existe uma coisa muito simples acontecendo:
duas pessoas trabalhando juntas.
Não existe vergonha nenhuma nisso.
Não existe certo ou errado universal.
Existe o que funciona para cada um.
E eu acho que a gente está vivendo um tempo em que todo mundo quer dar opinião sobre como o outro deveria trabalhar.
Como deveria cobrar.
Como deveria produzir.
Como deveria aparecer.
Como deveria fazer sucesso.
Eu prefiro não entrar nessa.
Quero cuidar do meu.
E o meu tem uma coisa que talvez seja a mais importante de todas:
eu gosto de fazer.
Muito.
E talvez seja por isso que, depois de tantos anos, eu tenha descoberto uma coisa sobre mim que não tinha percebido lá atrás.
Talvez eu não tenha nascido para dar notas.
Talvez eu tenha nascido para abrir janelas.
Para mostrar um lugar que alguém ainda não conhece.
Uma comida que alguém nunca experimentou.
Uma história que estava escondida numa esquina.
Uma pessoa que estava começando.
Um sonho que merecia ser visto.
E isso me faz feliz.
Hoje, inclusive, existe um sonho que parece até contraditório para quem olha de fora.
Eu gostaria, um dia, de não precisar cobrar de ninguém.
Não porque cobrar pelo meu trabalho seja errado.
Não é.
Meu trabalho tem valor.
Eu batalhei para chegar até aqui e tenho orgulho disso.
Mas imagino o dia em que eu possa entrar em qualquer lugar, grande ou pequeno, conhecido ou desconhecido, e simplesmente pensar:
"Gostei disso. Quero mostrar."
E fazer.
Porque alguma coisa ali me despertou curiosidade.
Porque achei bonito.
Porque estava gostoso.
Porque encontrei uma história.
Porque achei que valia a pena compartilhar.
Talvez seja esse o lugar que estou descobrindo para mim.
Não o de alguém que diz ao público o que ele deve escolher.
Mas o de alguém que pega o leitor pela mão e diz:
"Vem comigo. Vamos descobrir isso juntos."
E talvez seja por isso que essa conversa tenha tanto a ver com O Que a Vida Serve.
A vida passa muito tempo colocando a gente em lugares.
A gente trabalha.
Aprende.
Erra.
Acerta.
Muda.
Recomeça.
E, em algum momento, percebe que não precisa mais perguntar apenas:
"O que eu quero fazer da minha vida?"
Talvez a pergunta seja outra:
"O que a vida está tentando fazer de mim?"
Eu ainda não sei a resposta.
Mas sei que gosto muito do lugar onde estou chegando.
E, enquanto descubro, vou continuar fazendo o que sempre gostei:
abrindo portas,
contando histórias,
experimentando coisas,
encontrando pessoas
e convidando quem está do outro lado a vir comigo.
Porque, no fim das contas, eu não quero dizer às pessoas o que elas devem comer.
Quero apenas convidá-las a descobrir comigo.
NOTA DO COLUNISTA
Talvez trabalhar com aquilo que a gente gosta seja uma das maiores sortes da vida.
Não importa se o caminho é grande ou pequeno, se começa com um convite, uma permuta, um salário, um contrato ou com a gente pagando do próprio bolso.
Cada pessoa encontra seu jeito.
E, se existe respeito pelo trabalho e felicidade dos dois lados, que bom.
Eu só espero continuar encontrando o meu.
E que a vida continue me servindo histórias que valham a pena contar.
Porque algumas portas a gente abre para entrar.
Outras, para deixar que alguém do outro lado enxergue o que existe lá dentro.
Fernando Bicudo
Publicitário, colunista e curador gastronômico. Em Prosa & Cozinha, mapeia experiências, tendências e histórias que dão sabor à vida.



