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EDSON GUILHERME Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026, 13:23 - A | A

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026, 13h:23 - A | A

JANELA CERTA

O jejum intermitente funciona, mas não pelo motivo que te venderam

Estratégia que ganhou fama entre quem busca emagrecimento, mas o verdadeiro segredo está muito menos no relógio e muito mais na adesão, no déficit energético e na individualidade de cada pessoa

 

O relógio virou protagonista de muitas conversas sobre emagrecimento. Nos últimos anos, o jejum intermitente ganhou status de queridinho entre quem busca perder peso, melhorar a alimentação e até transformar a relação com a comida. Mas, em meio a tantas promessas nas redes sociais, existe uma pergunta que merece ser feita: o que realmente faz o jejum funcionar?

 

A resposta pode ser bem menos milagrosa, e justamente por isso, mais interessante.

 

O jejum intermitente é uma estratégia que estabelece quando comer, alternando períodos de alimentação com períodos de jejum calórico. Diferentemente de uma dieta que determina exatamente o que vai para o prato, ele organiza principalmente os horários das refeições. E aí está parte de sua popularidade. Para algumas pessoas, controlar o horário das refeições pode ser muito mais simples do que ficar contando calorias ou planejando quatro, cinco ou seis refeições ao longo do dia.

 

Segundo o nutricionista esportivo Danilo Macena, existem evidências de que a estratégia pode contribuir para a redução de peso e gordura corporal e melhorar alguns marcadores metabólicos em pessoas com sobrepeso e obesidade. Ou seja: o jejum não precisa ser colocado na categoria de “modinha sem fundamento”.

 

Mas também não é preciso transformá-lo em uma espécie de fórmula mágica.

 

O ponto central está justamente aí. Boa parte dos resultados observados acontece porque, ao restringir o período em que pode comer, a pessoa acaba ingerindo menos calorias espontaneamente. Menos ingestão, associada ao gasto energético, pode resultar em déficit calórico e, consequentemente, perda de peso. Traduzindo para a vida real: não é simplesmente passar horas sem comer que determina o emagrecimento.

 

É por isso que aquela história de que o jejum, sozinho, “desintoxica” o organismo, “reseta” o metabolismo ou seria capaz de prevenir praticamente todas as doenças precisa ser vista com cautela. A estratégia pode funcionar, mas o mecanismo não é tão glamouroso quanto algumas promessas que circulam por aí. E isso não diminui o jejum. Apenas coloca cada coisa em seu devido lugar.

 

Na prática, a escolha deveria começar pela pessoa, e não pelo protocolo que está bombando nas redes sociais. Para quem naturalmente prefere fazer poucas refeições, acorda sem fome ou simplesmente não gosta de tomar café da manhã, uma janela alimentar mais restrita pode ser confortável e sustentável.

 

Porque existe uma palavra que talvez seja ainda mais importante do que “jejum”: adesão.

 

A melhor estratégia alimentar tende a ser aquela que a pessoa consegue manter sem transformar a rotina em uma batalha permanente contra o relógio e a fome. E nem todo mundo deve seguir esse caminho. Gestantes e pessoas com diabetes tipo 1 em uso de insulina, por exemplo, exigem cuidados específicos. Também merece atenção quem possui histórico de transtornos alimentares ou ansiedade, já que a restrição de horários pode, em determinadas situações, funcionar como gatilho para compulsão.

 

Tontura, fraqueza, tremores, dores de cabeça frequentes, irritabilidade e queda de rendimento também são sinais de que é preciso reavaliar a estratégia. E existe ainda um sinal que não aparece em exame de sangue: quando a pessoa começa a viver em função do relógio, contando desesperadamente quanto falta para poder comer, talvez aquela janela não esteja fazendo bem.

 

No fim das contas, o grande desafio não é decidir se o jejum é “bom” ou “ruim”. É entender para quem, em qual contexto e com que objetivo ele pode fazer sentido.

 

Emagrecimento não precisa necessariamente passar pelo jejum. Uma alimentação com calorias adequadas, boa quantidade de proteínas, vegetais, frutas, sono de qualidade e atividade física pode produzir resultados sem que ninguém precise ficar olhando para o relógio esperando a próxima janela.

 

Porque, quando o assunto é alimentação, talvez a pergunta mais importante não seja “quantas horas eu consigo ficar sem comer?”, mas sim: “Qual estratégia eu consigo sustentar e que faz sentido para a minha vida?”

 

Danilo Macena é nutricionista esportivo.


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