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Coluna Mila Schneider Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026, 10:55 - A | A

Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026, 10h:55 - A | A

Por Mila Schneider-Lavelle

O mundo está dependendo do petróleo das zonas de guerra

Mila Schneider Lavelle

 

Por Mila Schneider Lavelle*

 

Conflitos atingem países responsáveis por mais de 43% da oferta global de petróleo. Com Ormuz estrangulado, refinarias fora de operação e estoques caindo, a energia voltou a ser uma das armas mais poderosas da geopolítica mundial.

 

O petróleo nunca deixou de ser poder. Mas, em 2026, ele voltou a ser também vulnerabilidade.

 

Quase metade da produção mundial está hoje vinculada a países atingidos por guerras, conflitos, sanções ou graves interrupções associadas à instabilidade geopolítica. Cálculos publicados pela Reuters nesta terça-feira, 25 de agosto, a partir de dados da Agência Internacional de Energia, mostram que essas nações produziram aproximadamente 45 milhões de barris por dia em 2025 mais de 43% da oferta mundial.

 

É um número que muda a dimensão do problema.

 

Não estamos diante apenas de outra oscilação do preço do barril. O mundo construiu uma economia que ainda depende profundamente de petróleo produzido, refinado ou transportado através de algumas das regiões politicamente mais instáveis do planeta. E agora várias dessas crises estão acontecendo ao mesmo tempo.

 

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã atingiu o coração energético do Golfo. A guerra entre Rússia e Ucrânia continua afetando produção, infraestrutura e refinarias russas. Instabilidade na Líbia, problemas envolvendo o petróleo venezuelano e interrupções no Cazaquistão adicionam novas camadas de pressão sobre um sistema que já opera com margens menores de segurança.

 

O gargalo chamado Ormuz

 

Nenhum ponto do mapa explica melhor essa fragilidade do que o Estreito de Ormuz.

 

Antes da atual crise, aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo e derivados atravessavam diariamente a passagem, volume equivalente a cerca de um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo. Em 2025, quase 90% do petróleo bruto e condensado que passava por Ormuz tinha como destino mercados asiáticos.

 

A dimensão da ruptura é extraordinária.

 

Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que o fluxo médio através de Ormuz caiu de cerca de 21,6 milhões de barris por dia no último trimestre de 2025 para apenas 4,9 milhões no segundo trimestre de 2026. Há rotas alternativas. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuem oleodutos capazes de contornar parcialmente o estreito.

 

Mas a palavra decisiva é parcialmente.

 

A capacidade combinada relevante dessas alternativas é de aproximadamente 4,7 milhões de barris por dia. Não existe atualmente infraestrutura suficiente para simplesmente deslocar todo o petróleo que tradicionalmente atravessa Ormuz. É justamente por isso que um pequeno corredor marítimo possui influência tão gigantesca sobre a economia global.

 

O problema já não é apenas encontrar petróleo

 

Existe ainda uma segunda crise, menos visível e talvez igualmente perigosa: refinar o petróleo que permanece disponível.

 

Conflitos no Golfo e ataques relacionados à guerra na Ucrânia retiraram de operação aproximadamente 10% da capacidade mundial de refino, segundo a Reuters.

 

Isso ajuda a explicar uma aparente contradição do mercado.

 

Um país pode conseguir petróleo bruto e, ainda assim, enfrentar falta ou encarecimento de gasolina, diesel e combustível de aviação. A Agência Internacional de Energia informou que as refinarias processaram aproximadamente 80,9 milhões de barris por dia em julho, quase 5 milhões abaixo do nível registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, margens de refino para produtos como diesel e combustível de aviação atingiram níveis excepcionalmente elevados.

 

O gargalo, portanto, já não está apenas no poço.

 

Está no navio.

 

No estreito.

 

No oleoduto.

 

Na refinaria.

 

E em cada infraestrutura energética que pode se transformar em alvo militar.

 

Os estoques que protegiam o mundo estão diminuindo

 

Durante os primeiros meses da crise, governos conseguiram amortecer parte do choque recorrendo a reservas estratégicas.

 

Mas reservas existem justamente porque são finitas.

 

A Agência Internacional de Energia calcula que os estoques globais observados caíram 69 milhões de barris somente em julho. Desde o início da guerra, a redução acumulada chegou a aproximadamente 410 milhões de barris. Ao mesmo tempo, a oferta global de julho permaneceu 6,3 milhões de barris por dia abaixo do nível registrado um ano antes, enquanto 8,3 milhões de barris diários de produção do Golfo continuavam fora do mercado.

 

Isso significa que o sistema internacional está consumindo parte do colchão que normalmente absorveria uma nova emergência.

 

E essa talvez seja a parte mais preocupante.

 

O risco não está apenas na crise atual.

 

Está na próxima.

 

Quando petróleo vira política externa

 

Durante décadas, países consumidores tentaram tratar segurança energética como uma questão principalmente econômica. 2026 está lembrando ao mundo que ela sempre foi uma questão de segurança nacional. A consequência de uma interrupção relevante no Golfo não fica restrita às empresas petrolíferas. Ela percorre toda a economia.

 

O diesel encarece o transporte.

 

O transporte encarece os alimentos.

 

O combustível de aviação encarece as passagens.

 

A energia pressiona a indústria.

 

A inflação limita bancos centrais.

 

Juros permanecem elevados.

 

E governos passam a gastar mais para proteger consumidores de uma crise que começou milhares de quilômetros de distância. É assim que uma guerra regional pode chegar silenciosamente ao supermercado de alguém na Flórida, a uma fábrica na Alemanha ou ao preço de uma passagem aérea no Brasil.

 

A nova geopolítica do barril

 

Há uma ironia histórica nisso.

 

O mundo nunca discutiu tanto a transição energética. Nunca houve tanto investimento em energia solar, eólica, veículos elétricos e novas tecnologias. Mas a economia internacional continua descobrindo, a cada nova crise, quanto ainda depende do velho barril de petróleo. E essa dependência agora se encontra sobreposta a uma geografia explosiva.

 

Rússia.

Golfo Pérsico.

Irã.

Iraque.

Líbia.

 

Rotas próximas ao Mar Vermelho.

 

Poucos pontos do planeta concentram tamanho poder de desorganizar preços, inflação, comércio e crescimento simultaneamente. Por isso, a verdadeira pergunta de 2026 talvez já não seja simplesmente quanto petróleo existe no mundo.

 

É outra:

 

Quanto desse petróleo o mundo consegue produzir, refinar e transportar sem que uma guerra interrompa o caminho?

 

Porque quando mais de 40% da oferta mundial está ligada a países atingidos por conflitos e tensões geopolíticas, petróleo deixa de ser apenas commodity.

 

Torna-se instrumento de poder.

 

E quando as principais rotas dessa energia atravessam regiões em guerra, o preço de cada barril passa a carregar algo que nenhuma bolsa consegue calcular perfeitamente:

 

O preço do risco.

 

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*Mila Schneider Lavelle é correspondente internacional, colunista, jornalista e teóloga. Formada pela Universidade de Columbia com bacharelado em Religião, ela é especialista em geopolítica, relações internacionais, estudos do Oriente Médio. Antes de ingressar no jornalismo, atuou nas áreas de comunicação estratégica, relações institucionais e marketing, liderando importantes projetos nacionais e internacionais. Atualmente, atua como correspondente internacional e colunista do jornal Folha do Estado, cobrindo política global, diplomacia, segurança internacional.


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