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Coluna Mila Schneider Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026, 14:31 - A | A

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026, 14h:31 - A | A

O SEGREDO DE FAUCI

FAUCI: A verdade obscura sobre a COVID 19

Mensagens privadas reveladas cinco anos depois mostram Anthony Fauci discutindo internamente um possível risco teórico de aborto espontâneo no primeiro trimestre após a segunda dose da vacina contra a Covid-19

Mila Schneider Lavelle

 

Por Mila Schneider Lavelle*

 

Documentos recém-divulgados do telefone oficial do Dr. Anthony Fauci abriram uma nova frente sobre uma das questões mais sensíveis da pandemia: o que as autoridades sanitárias sabiam, o que discutiam internamente e o que decidiram dizer ao público.

 

Mensagens de janeiro de 2021, recuperadas do iPhone governamental de Fauci e divulgadas pelos senadores republicanos Ron Johnson e Rand Paul, mostram que o então diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases discutiu privadamente a possibilidade de a segunda dose de uma vacina contra a Covid-19 estar associada, ao menos teoricamente, a aborto espontâneo durante o primeiro trimestre da gravidez.

 

A frase é particularmente relevante porque foi escrita no início da vacinação em massa, quando ainda existiam lacunas importantes de dados sobre gestantes.

 

Segundo os documentos divulgados pelo Senado, Fauci discutia uma hipótese envolvendo a resposta inflamatória provocada pela vacinação. A preocupação era de que febre e liberação de citocinas após a segunda dose pudessem, teoricamente, representar risco durante o período inicial da gestação.

 

Rochelle Walensky, então diretora do CDC, respondeu reconhecendo a pertinência da preocupação.

 

O problema político começa no contraste entre aquela conversa privada e a mensagem transmitida ao público.

 

Pouco depois, Fauci afirmou publicamente que os dados observados entre milhares de grávidas vacinadas não apresentavam “red flags” sinais de alerta. Registros contemporâneos mostram que, em fevereiro de 2021, ele dizia que aproximadamente 20 mil grávidas haviam recebido a vacina sem que os sistemas de monitoramento tivessem identificado sinais preocupantes até aquele momento.

 

Meses depois, em entrevista à ABC News em 9 de maio de 2021, Fauci foi ainda mais enfático.

 

Questionado especificamente sobre a segurança das vacinas para mulheres grávidas ou tentando engravidar, respondeu que não parecia haver problema, afirmou novamente que não existiam “red flags” e acrescentou que não havia nada indicando que surgiria algum problema.

 

O que Fauci sabia e o que o público ouviu

 

É justamente aqui que nasce a controvérsia.

 

Uma coisa é uma autoridade científica dizer:

 

Existe uma preocupação biologicamente plausível que ainda estamos investigando, mas até agora os dados disponíveis não demonstraram aumento de risco.

 

Outra é transmitir apenas a segunda metade da informação.

 

As mensagens agora reveladas demonstram que, internamente, Fauci havia considerado uma hipótese específica envolvendo aborto espontâneo no primeiro trimestre. Sua comunicação pública, entretanto, enfatizou a ausência de sinais adversos observados nos dados disponíveis.

 

Isso não prova, por si só, que Fauci soubesse que as vacinas causavam abortos. Os documentos divulgados até agora não demonstram isso.

 

Mas eles levantam uma pergunta legítima e inevitável: por que uma preocupação considerada relevante o suficiente para ser discutida privadamente entre algumas das principais autoridades sanitárias dos Estados Unidos não apareceu com a mesma clareza na comunicação dirigida às mulheres americanas?

 

Não havia ensaios clínicos completos em grávidas

 

Há outro elemento fundamental.

 

No início de 2021, as vacinas autorizadas nos Estados Unidos não haviam sido originalmente testadas em ensaios clínicos desenhados especificamente para determinar sua segurança e eficácia em mulheres grávidas.

 

Reportagens publicadas naquele próprio período registravam explicitamente essa limitação. Em fevereiro de 2021, por exemplo, especialistas afirmavam que os dados observacionais iniciais eram tranquilizadores, mas reconheciam que ainda não era possível afirmar com certeza absoluta todos os efeitos da vacinação durante a gravidez.

 

Portanto, a questão histórica não pode ser analisada utilizando apenas o conhecimento acumulado anos depois.

 

É necessário perguntar o que era conhecido em janeiro de 2021.

 

E os novos documentos acrescentam uma peça que o público não possuía naquele momento: Fauci estava pessoalmente considerando uma possível relação teórica entre a reação à segunda dose e aborto espontâneo durante o primeiro trimestre.

 

E os alegados 82%?

 

Nas redes sociais, a divulgação rapidamente passou a ser acompanhada de outra afirmação: a de que a verdadeira taxa de aborto entre mulheres vacinadas teria sido de 82%, e não aproximadamente 12%.

 

Essa alegação exige cautela.

 

O número de 82% resulta de uma reinterpretação controversa dos dados preliminares publicados em 2021 e não corresponde à conclusão científica estabelecida pelo estudo original. Portanto, apresentá-lo como “a verdadeira taxa de aborto causada pela vacina” ultrapassaria aquilo que as evidências atualmente permitem afirmar.

 

Essa distinção é essencial porque a nova revelação sobre Fauci não depende desse número para ser relevante.

 

O documento existe.

 

A preocupação privada existe.

 

A declaração pública também existe.

 

E agora ambas podem ser colocadas lado a lado.

 

34 mil mensagens ainda sob análise

 

A história pode estar apenas começando.

 

Johnson e Paul afirmam ter obtido mais de 34 mil mensagens de texto e 522 mensagens de voz provenientes do telefone governamental utilizado por Fauci. O material foi recuperado depois de sua aposentadoria e integra a investigação parlamentar sobre decisões tomadas durante a pandemia. (U.S. Senator Ron Johnson)

 

A primeira divulgação representa apenas uma parcela desse acervo.

 

Isso significa que a dimensão definitiva da controvérsia dependerá do restante dos documentos: se outras mensagens mostrarem que autoridades tinham dados concretos de risco e conscientemente os esconderam, o caso muda de dimensão. Se mostrarem apenas cientistas debatendo hipóteses que posteriormente não se confirmaram, a interpretação será diferente.

 

Por enquanto, há uma conclusão documentalmente sustentável:

 

Fauci discutiu privadamente uma possível associação teórica entre a segunda dose da vacina contra Covid-19 e aborto espontâneo no primeiro trimestre. Pouco depois, publicamente, afirmou que não estavam aparecendo “red flags” entre grávidas vacinadas.

 

As duas afirmações não são necessariamente cientificamente incompatíveis uma hipótese teórica pode existir sem que dados observacionais revelem um sinal de risco.

 

Politicamente, porém, elas expõem algo maior.

 

Durante uma emergência sanitária, autoridades públicas não controlam apenas políticas. Controlam informação capaz de alterar decisões individuais sobre saúde.

 

Para milhares de mulheres grávidas, a pergunta em 2021 não era abstrata. Era profundamente pessoal:

 

“Existe algum risco para o meu bebê?”

 

Hoje sabemos que, nos bastidores, a principal autoridade em doenças infecciosas dos Estados Unidos havia considerado exatamente essa possibilidade.

 

O debate que começa agora não é apenas sobre vacinas.

 

É sobre transparência, consentimento informado e o limite entre tranquilizar a população e decidir, em nome dela, quais incertezas ela deveria conhecer.

 

 

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*Mila Schneider Lavelle é correspondente internacional, colunista, jornalista e teóloga. Formada pela Universidade de Columbia com bacharelado em Religião, ela é especialista em geopolítica, relações internacionais, estudos do Oriente Médio. Antes de ingressar no jornalismo, atuou nas áreas de comunicação estratégica, relações institucionais e marketing, liderando importantes projetos nacionais e internacionais. Atualmente, atua como correspondente internacional e colunista do jornal Folha do Estado, cobrindo política global, diplomacia, segurança internacional.


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