Não faltam estudos que analisam a influência da torcida nos esportes tradicionais. Em geral, esses estudos mostram que a presença dos fãs tem um impacto positivo, mas também há diversos casos em que ela gera o efeito oposto. Mas, a discussão fica ainda mais interessante quando o debate é sobre a presença dos fãs de eSports nos torneios presenciais (LAN). Aqui, o ponto fundamental é: o efeito da torcida nos eSports é ainda mais complexo: ele vai além do mero impacto emocional e pode gerar até mesmo situações que colocam em risco a integridade esportiva. É hora de descobrir histórias e dados que provarão como a presença do público tem grande impacto nessas competições.
O caso emblemático do IEM RIO - Major de Counter-Strike
O IEM RIO 2022 (Rio de Janeiro) marcou um momento histórico para o Counter-Strike mundial. A torcida brasileira lotou as arenas e isso rendeu vários vídeos virais e emocionantes. E isso, entre outras coisas, mostra como essa categoria já tem uma popularidade inquestionável. Não por acaso, os eSports já estão presentes em transmissões na internet e são parte integrante das apostas esportivas no Brasil — é possível apostar em Dota 2, Counter Strike 2, League of Legends, Valorant, Honor of Kings , Call of Duty e em alguns outros jogos. Já os apostadores registrados nas casas de apostas brasileiras hoje podem testar novas modalidades de esports para si mesmos tanto usando códigos promocionais de apostas após fazer um depósito quanto puramente com o próprio dinheiro.
Mas voltando ao evento no Rio, a presença massiva da torcida brasileira não gerou só repercussão positiva. Esse foi um momento extremo que ilustra perfeitamente como o fator torcida é diferente nos esportes eletrônicos. O grande ponto é que, além da torcida brasileira ter sido fundamental na motivação dos atletas da Furia, que chegaram à primeira vez no top-4 de um campeonato mundial, ela também participou de outra forma.
E essa forma não é exclusiva dos brasileiros, é claro: a grande diferença é que o público, nos eSports, acaba virando uma espécie de técnico ou jogador extra. E claro, embora em esportes como o futebol a torcida até possa avisar quando um adversário chega para roubar a bola, por exemplo, nada se assemelha ao que acontece no mundo virtual. No caso do Major disputado no Rio de Janeiro, o público literalmente passou as calls para os jogadores, avisando sobre movimentos e estratégias dos adversários.
Comparando os dados com o que aconteceu no Rio de Janeiro
O relato acima, assim como os dados a seguir, foi divulgado no portal HLTV, que também fez uma publicação interessante antes do Major disputado no Rio em 2022. Na ocasião, a discussão era justamente se esse torneio poderia ter algo de diferente por conta da alta expectativa da presença do público.
Assim, com base em dados nos anos anteriores, a conclusão foi de que a influência da torcida até existe e ajuda as equipes, mas que não tem um peso tão grande assim. No caso do Major 2022, por coincidência ou não, a equipe brasileira Furia bateu uma marca inédita na sua história e pode ter surpreendido os próprios analistas, que previam um baixo impacto.
Como a torcida participa na prática?
Na prática, a torcida acaba funcionando como um termômetro que antecipa o jogo para os atletas. Com acesso privilegiado às cenas, ela consegue ver de fora e notar aproximações de jogadores, e, por exemplo, gritar para os jogadores em qual bombsite estão os inimigos, ou mesmo dizer onde há ou não um oponente. É como um cheat em tempo real, que aconteceu, ao vivo e a cores, no Rio de Janeiro.
Mas não ache que esses casos só aconteceram nesse torneio histórico disputado no Brasil. Há vários relatos super interessantes de jogadores em diferentes modalidades, como o caso de Shroud (exjugador profesional de CS:GO), que relata o “truque” de ouvir a reação da torcida para saber se acertou um adversário no meio da smoke. Mesmo que ele esteja de fone, então, é possível entender, pelo nível do ruído, que ele acertou.
Outro caso interessante é de Sib, jogador de Call of Duty, que relatou ter utilizado ruído branco no fone pela primeira vez para evitar se desconcentrar com o público. E esse relato é perfeito, pois ajuda a levar a discussão para outro caso e para as soluções que os organizadores das competições vêm encontrando.
Ruído branco, cabines e até tentativa de abafar o público
Esperar que o público se comporte ou faça menos barulho é algo irreal. Os fãs apaixonados farão de tudo para ver o bem dos seus times e do seu país. Então, os organizadores precisam fazer o seu papel e garantir que tudo fique justo e equilibrado. Sendo assim, a medida mais comum relatada é o uso do ruído branco, um som inserido no fone dos jogadores que ajuda a isolar acusticamente o atleta do ambiente da arena.
Já em jogos como Starcraft e Dota, as medidas de algumas competições podem ser mais extremas - e talvez justas? No caso desses eSports, cabines com isolamento acústico são uma solução que sim, é perfeita para evitar a influência do público, mas ao mesmo tempo, acaba sendo um pouco contraditória se for aplicada em outros eSports.
Vale discutir que, entre os motivos para se fazer eventos presenciais, está, é claro, a capacidade de aproximar o público do esporte. Ao inserir cabines, isso pode eliminar o fator motivação e conexão de um time com seus fãs. Mas não é fácil encontrar soluções, e a melhor prova disso está em outra situação típica.
Quando o ruído branco vira o problema
Os relatos do ruído branco, que deveria ser a solução para o barulho do público, se tornando o grande problema, não são poucos. Há casos em que a Riot (Valorant) teve problemas em configurar o ruído e que atletas reclamaram com veemência de que não conseguiam ouvir, em seus fones, elementos essenciais no competitivo, como os passos de adversários.
É aí que a presença do público, algo que dá um espírito totalmente novo às competições, começa a virar um labirinto. Como resolver o problema do público que avisa e participa ativamente do jogo? Como os diferentes organizadores dos diferentes eSports podem e devem ser organizar para garantir a integridade do jogo? Essa não é uma solução simples.
Mas só para ilustrar, é importante notar que mesmo pequenas mudanças podem surtir efeito. Por exemplo, o design do palco e o posicionamento dos alto-falantes podem evitar que os jogadores sintam as vibrações dos fãs. Então, as soluções, em resumo, ficam assim:
Também vale falar do básico: o impacto emocional do público
Para além da polêmica das “informações privilegiadas”, o efeito mais imediato e básico da plateia também precisa ser discutido. Fica claro que os fãs ajudam a dar um gás diferente nos jogadores, mas isso depende muito do perfil individual dos atletas. Alguns podem se sentir pressionados e inseguros.
Além disso, o jogador de futebol, por exemplo, é bem mais acostumado com essa presença da torcida. Eles vivem isso 1, 2 e até 3 vezes por semana. Já o jogador de eSports precisa de mais tempo para se calejar e deixar essa influência de lado, aprendendo a aproveitar só as partes boas.
O fator público é único nos eSports
Os eSports trazem o fator do público com algumas características bem típicas. Além do impacto emocional que já acontece nos esportes tradicionais, os fãs aqui conseguem participar ativamente, como se estivessem quase dentro do jogo.
Isso cria uma linha tênue entre a paixão pelo esporte, a proximidade entre atletas e fãs, e a própria integridade esportiva. Como garantir o equilíbrio nessa situação? Infelizmente, ainda não há clareza suficiente sobre isso.
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