Tristeza: Quando passa a ser depressão?

Tristeza: Quando passa a ser depressão?

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A tristeza é um sentimento inerente à vida do ser humano e sua duração é limitada, passageira. Costuma ser vista por profissionais da saúde como uma emoção saudável, que auxilia a pessoa a elaborar e lidar com as perdas que fazem parte da vida cotidiana.

Uma das funções da tristeza é servir de sinal de alerta, mostrando-nos que algo não está bem dentro de nós e que precisamos nos cuidar. A outra função é nos ajudar a reorganizar internamente e superar o momento difícil; para isso, é necessário desacelerar, dar uma pausa e focar naquilo que, de fato, é importante naquele momento.

Assim, avaliar, compreender e aprender com o motivo que despertou a tristeza em você pode ser um benefício para o seu amadurecimento emocional. Pode ser a saudade de alguém que se foi, a perda de um emprego, uma doença, separação… Independentemente do motivo, o importante aqui é fazer uma pausa e reavaliar a maneira como temos conduzido nossas vidas – penso que, talvez, sem a tristeza, não daríamos a devida importância ao que é relevante e seguiríamos nos atropelando e nos envolvendo com mais e mais compromissos.

Infelizmente, na atualidade, existe uma crença que parece estar se tornando uma obrigatoriedade: “Ser feliz”. No dia a dia, no consultório ou em palestras e cursos que ministro, ouço muitos pais dizerem que educam seus filhos para serem pessoas felizes. Isso me preocupa, porque ninguém consegue ser feliz o tempo todo. Além disso, sentir-se feliz está vinculado a resultados de investimentos que fazemos, de lutas que vencemos e de frustrações que superamos.

A felicidade – crença que parece um culto e uma idolatria – tem contribuído com o aumento de sofrimento e estresse devido à não “permissão” social de experimentar a tristeza como um sentimento. Com isso, têm chegado aos consultórios médicos e psicológicos, aos gabinetes de padres e pastores pessoas em sofrimento, alimentadas por uma falsa culpa, como se estivessem fazendo algo errado por não estarem alegres/felizes.

Cabe aqui caracterizar a depressão para podermos ter condições de diferenciá-la do sentimento de tristeza. Embora seja um dos sintomas da depressão, a tristeza só é considerada pertinente ao quadro da doença quando persiste por um longo tempo. No início deste artigo, ao definir a tristeza, escrevi que ela tem um tempo limitado, ou seja, quando é só tristeza, o tempo é mais curto; na depressão, ele se estende e fica algo constante.

Além da persistência da tristeza, há sentimentos de desesperança, apatia (falta de vontade de fazer coisas que antes lhe davam prazer), indiferença (é como “tanto faz”), ausência de perspectiva e de prazer, sensação de inutilidade e culpa, podendo a pessoa chegar a pensar, com certa frequência, na própria morte.

A depressão costuma causar alteração no sono; o sujeito passa a dormir pouco ou muito. O apetite também muda: enquanto uns têm um aumento acentuado de fome e engordam bastante em pouco tempo, outros, devido à falta de apetite, emagrecem consideravelmente em curto tempo. É inclusive comum a pessoa se sentir mais lenta, com sensação de cansaço constante sem motivo, falta de energia, ou, ao contrário, ficar agitada e inquieta.

Caro(a) leitor(a), quero lembrar-lhe de que, mesmo no início da depressão, o que fica mais evidente é a irritabilidade constante. Esses outros sentimentos relacionados acima aparecem de forma mais sutil, no entanto é importante observá-los, porque sabemos que a depressão é uma doença que está entre as três que mais matam no mundo atual, independentemente de raça, gênero, religião, classe social e faixa etária. Assim, se a pessoa buscar ajuda cedo, evitará maiores complicações.

Em relação à tristeza, já ficou claro que é um sentimento que nos possibilita refletir sobre a nossa postura diante da vida e nos proporciona a elaboração do luto pelas perdas decorrentes de rompimentos de laços afetivos por meio da morte, de separações, e outras; de maneira saudável, é possível vivenciar a tristeza desencadeada pela dor da perda e, ao final do processo de luto, realizar novos investimentos e projetos de vida.

Portanto, fique atento(a) aos seus sentimentos e se permita senti-los, afinal eles fazem parte de nossa condição humana. Ficar triste, vez por outra, não é um problema que precisa ser medicado e sim pensado, refletido, para chegar a uma compreensão do que está lhe causando essa tristeza, de onde ela vem e por que lhe faz sentir-se triste. Desse modo, ela poderá se tornar produtiva e até levá-lo(a) a mudanças, quando necessárias, tornando a sua vida mais satisfatória. Como disse um grande sábio, “todas as coisas cooperam para o bem…”.

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