Superando a Solidão

Superando a Solidão

- em Comportamento
Comentários desativados em Superando a Solidão

Vivemos em uma época absolutamente especial. A singularidade de nosso tempo pode ser percebida entre várias características como: problemas nas economias mundiais qualquer que seja o sistema de governo adotado; insistência da manutenção e até surgimento de estados ditatoriais; avanço científico e tecnológico que propiciou, entre outras coisas, um mundo de novas conexões, para citar apenas algumas poucas dessas peculiaridades. Essa última característica torna o nosso tempo diferente de tudo o que já se experimentou na história da humanidade. Em tempos atrás, alguém sabia e se preocupava com as problemáticas de seu bairro, quando muito, de sua cidade. Obviamente, não por desprezo, mas, por falta de informação. A informação era algo que demorava chegar às pessoas. Muitos esperavam ansiosos pelo carteiro na ânsia por novas informações: políticas, econômicas, ou mesmo, pessoais. Falar hoje, que tempos atrás muita gente namorou por carta é algo quase que inimaginável e impensável.

O avanço científico e tecnológico propicia ao ser humano de hoje estar conectado em tempo real, praticamente com o mundo todo. Internet trouxe inúmeras possibilidades de construção dessas novas conexões: facebook, instagram, whatsapp, email, apps de diversas funções (bancárias, pedidos de comida delivery, gps, trânsito em tempo real, notícias locais/nacionais/internacionais, entre tantos outros). As pessoas estão realmente conectadas. Entretanto, nem tudo são boas notícias.

Esperava-se que em meio a tanta conexão o sujeito atual estivesse enfastiado e saciado com os relacionamentos pessoais com todos os benefícios que isso traz, tendo em vista, a abundância das conexões, mas, não é o que se percebe. Há muita solidão em meio a tanta conexão. Há muita desconexão diante das imensas conexões atuais. Solidão parece ser um sofrimento vivido, embora, impensável para um mundo de tantas ligações.

Em certo sentido todos vivemos sós, existencialmente solitários. Embora isolamento e solidão sejam coisas diferentes, existem muitos que vivem tanto a solidão quanto o isolamento mesmo em meio às suas conexões. O isolamento tem seus aspectos saudáveis, entre eles, um afastamento físico necessário de outros, ainda que provisório. A solidão, isolados ou não, é um estado de angústia correspondente ao sentimento de rejeição. Essa solidão pode refletir receios de abandono, resultar de sentimentos de perda ou de experiências dolorosas no passado (remoto ou não) e ter alguma relação com estados de depressão. Pode ainda, refletir uma reação emocional de insatisfação advinda de ausência ou escassez de relacionamentos pessoais significativos. Uma solidão vivida tanto na presença como na ausência física do outro.

Como sair de situações onde muitos estão conectados, mas também, desligados, isolados e solitários? Construir relacionamentos significativos parece ser um desses caminhos. Relacionamentos onde haja conexões, mas também, ligações. É preciso arrombar as portas de bronze e quebrar as trancas de ferro que deixam as pessoas conectadas mas, sozinhas em suas prisões invisíveis aos olhos humanos que vão para onde elas estão. Cultivar a solidariedade e a amizade pode indicar possibilidades reais e factíveis para fugir dessas prisões portáteis.

Esse encastelamento pode refletir muitas vezes o medo das relações outrora e insistentemente abusivas, como também a competitividade que leva a encarar refratariamente o outro onde pessoalidades funcionariam agora como repelentes “naturais”. A vida agitada levou o indivíduo a muitas outras possibilidades de ligação, ao mesmo tempo, que vagarosamente o isolou e desligou dos outros.

Interessante pensar na paixão como alguém que se afasta de si para imergir no mundo do outro. Não é usar o outro para entrar em um processo de autoalienação, mas, perceber como a inclinação para fora de si leva esse ser a sentir-se feliz, satisfeito em alguma medida. Parece que, num certo sentido, quanto mais centrado em si, mais insatisfação experimentará.

O cultivo de amizades leva como característica esse movimento de se voltar para o outro, e consequentemente para fora de si mesmo. Não significa com isso ignorar ou descuidar de si, mas, também não é esquecer ou desprezar o outro. Essa postura onde caiba dois ou mais indivíduos é refletido na amizade e no exercício da solidariedade.

Lutemos por mais relacionamentos significativos, por mais conexões que reflitam um entrelaçamento interno entre indivíduos, por mais amizades onde caibam mais de uma pessoa nesse relacionamento e não no cultivo narcísico de muitos eulacionamentos (onde se quer que o outro seja apenas uma extensão de nós mesmos).

Lutemos por mais proximidade interna e não apenas geográfica, por relações mais solidárias e menos utilitárias, por um mundo onde as pessoas sejam vistas mais como aliadas e menos como obstáculos, por relações mais apaixonadas e menos indiferentes e onde haja não somente conexões, mas também, ligações.

 

 

 

Psicólogo João Geraldo de Mattos Neto

Contato: joaogeraldo.psi@gmail.com

Facebook Comments

Veja também

A importância do toque

Um dos editores da Gazeta Literária que era