A importância do toque

A importância do toque

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Um dos editores da Gazeta Literária que era o mais importante jornal russo da época registra os seguintes dizeres que refletem a período da queda da antiga Rússia:

“o maior problema [da Rússia] não é a falta de salsichas. É bem pior, temos falta de ideias. Não sabemos o que pensar. Tiraram o chão de debaixo de nós”.

Assim ficaremos caso tenhamos dificuldade de permitir sermos tocados. E para que isso não ocorra, recorro a uma das pessoas que dá uma valorosa contribuição a respeito da importância das mãos e do toque humano que é Gwynne Williams. Cirurgião, voluntário de guerra, relata o fato de que não há substituto para o toque humano. As mãos servem dentre outras coisas, para:

Transmitir Cuidado Pessoal – Williams confiava mais em seus dedos do que num estetoscópio ou nas próprias descrições dos pacientes. Dizia ele – Ouça diretamente os intestinos deles. Segundo Williams uma mão treinada no abdomem pode detectar contração, inflamação e a forma de tumores que procedimentos mais complexos apenas confirmam.

Relaxar – uma mão aquecida persuade os seus pacientes a relaxarem.

Elimina Barreiras – Dr. Paul Brand foi um dos primeiros médicos a trabalhar, na Índia, diretamente com o problema da isquemia nos nervos, antigamente conhecida e nominada de lepra, e atualmente de hanseníase. Ele iria aprender que nem mesmo essa doença pode resistir ao toque humano, por mais irônico que isso possa parecer. Essa doença, que hoje tem cura, chegou mesmo a ser a quarta causa de cegueira no mundo.

Para se ter uma ideia de sua gravidade evoco aqui a história de…

  1. a) Stanley Stein que foi acometido pela isquemia nos nervos.

Já cego, para se vestir demorava aproximadamente 1 hora, colocando as pontas das roupas na língua, o único membro ainda com alguma sensibilidade.

Devido ao uso da estreptomicina, um poderoso antibiótico no momento, teve como efeito colateral a destruição do nervo auditivo. Seu último elo com o mundo exterior.

Não podia fazer uso do braillie, pois, era insensível ao toque. Não podia ver ou ouvir qualquer coisa. Incapaz de ver, ouvir, sentir e até mesmo cheirar, ele acordava desorientado. Estendia a mão e não sabia o que estava tocando, falava sem saber se alguém o ouvia ou respondia. Certa vez o ortopedista, Dr. Paul Brand o encontrou sentado numa cadeira resmungando para si mesmo em tom monótono:

– não sei onde estou. Alguém está aqui no quarto comigo? Não sei quem você é e meus pensamentos ficam girando. Não consigo ter novas idéias. Stein morreu em 1967 com a pior dor que alguém pode sentir: A FALTA DE DOR. A falta de dor lhe causara A DOR DA SOLIDÃO. Tudo isso devido a falta de sensibilidade ao toque.

Entretanto, mesmo a isquemia nos nervos não pôde resistir ao toque humano.

  1. b) Dr. Brand aprendeu a devastação que a isquemia nos nervos podia causar. Mas, aprendeu também o poder do toque humano.

Alguns meses após abrir uma unidade de fisioterapia para tratar de pacientes com esse problema examinou um jovem e tentou explicar-lhe que poderia impedir o progresso da doença e talvez restaurar alguns movimentos da sua mão, mas não seria possível fazer muito pelas suas deformidades faciais. Brincando um pouco para quebrar o gelo, o Dr. Paul Brand coloca a mão sobre o ombro de seu paciente e lhe diz:

seu rosto não é tão feio assim e não vai piorar se tomar o remédio. Afinal de contas, nós homens não temos de nos preocupar tanto com o rosto. São as mulheres que se afligem com qualquer mancha ou ruga.

Aquele homem começa a chorar, e como ele não falava tamil direito, pediu a uma de suas funcionárias para lhe ajudar com a tradução. O que aconteceu, eu disse algo errado? E após a mulher conversar com aquele homem, veio a resposta.

– Não doutor, ele disse que está chorando porque o senhor pôs a mão no ombro dele. Ninguém o tocava há anos. Sabem quem era aquela tradutora? Ruth Thomas. Uma inglesa fugitiva da China devido a revolução maoísta. Uma das primeiras mulheres do mundo, a trabalhar com pacientes com isquemia nos nervos. Uma fisioterapeuta.

Quem trabalha na área de saúde sabe da importância do toque como por exemplo: fisioterapeutas, psicólogos, médicos, enfermeiros, mas também professores, entre outros.

Todos em algum momento, tocamos e fomos tocados de alguma forma. Ainda há muito por fazer. Um desafio para os profissionais de saúde como também para toda a sociedade. Nunca se esqueçam, toquem e se permitam ser tocados de alguma forma. Trago o que está escrito no hospital memorial de Jackson, capital do Mississipi (EUA) nos dias de hoje para nos ajudar a entender como tocamos e fomos tocados e como isso se dará daqui por diante. Nesse memorial está escrito as seguintes palavras:

Não somos o que deveríamos ser,

Não somos o que queríamos ser,

Mas graças a Ti, não somos mais o que éramos

E que Deus nos ajude nesse processo de tocarmos e sermos tocados. Bom toque a todos.

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