Construindo futuros passados

Construindo futuros passados

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Atualmente, todos podemos lembrar quando na época da escola aprendíamos os tempos verbais, resumidos em: presente, passado e futuro. O presente (como símbolo das circunstâncias atuais, quase como fotografias existenciais congelando determinados momentos), passado (trazendo seletivamente à lembrança certas experiências que não gostaríamos de esquecer, e mesmo outras, que fazemos um esforço enorme para esquecer mas não conseguimos) e futuro (como sinônimo de algo que trouxesse a realização daquilo que construiremos através das expectativas que criamos).
Precisamos concordar que há muitos passados que não passam. São passados que poderíamos encaixá-los na categoria de presentes. Isso tanto das experiências boas quanto das ruins. Das ruins poderíamos elencar ilustrativamente: uma violação de seus direitos, abusos físicos e psicossociais de toda ordem, a ausência de pessoas que nos abandonaram de forma voluntária ou obrigatória (provocada por mortes, separações de entes queridos devido as guerras), aquele desprezo vivido por uma pessoa querida ou mesmo por um desconhecido, e assim por diante. Das boas poderíamos apontar imaginariamente: aquele dia na cachoeira com os amigos ou o par romântico, aquele reconhecimento do outro de aspectos de sua vida que foram dignos de nota naquele momento, a conversa nos cafés da vida onde os assuntos fluiam natural e inesgotavelmente por mais que as horas se juntassem numa conspiração inútil para encerrar essa ocasião mágica, aquele namoro onde se misturavam corpos (não necessariamente no ato sexual), conversas e ideais, e assim por diante.
Passados que passam, e tantos outros que ficam. Como transformar essas memórias que acabam se tornando tão presentes? Memórias que são verdadeiros presentes que ora machucam e ora iluminam nossa vida como experiências que gostaríamos que não cessassem nunca tal é o tamanho do bem-estar que provocam, sem transformarmos o presente em mera nostalgia? Como viver no presente de forma que essas experiências se tornem no futuro, nossos passados que vêm à mente e à existência atual tão facilmente que não gostaríamos jamais de esquecer? Como construir hoje, aquilo que futuramente será nosso passado?
Um enorme desafio. Talvez trazer à memória e à existência presente o reconhecimento das duas seja um primeiro passo. O passado tem um poder enorme sobre todos nós. Talvez seja impossível refazê-lo por mera limitação da nossa existência. Aqui vale o bordão que impera “não adianta chorar o leite derramado” com veemência sem igual. Contudo, embora não possamos refazer o passado, podemos dar novos significados a ele reconstruindo um presente que não só olha para trás, como um navio preso a uma âncora mesmo com motor ligado, e não consegue experimentar o horizonte que à frente se desponta.
Reconhecer que há um passado e nele marcas boas e ruins seja um primeiro passo. Uma vida que não sofra de amnésia. Parte da nossa identidade consiste nas nossas lembranças, boas ou ruins. Somos o que somos atualmente, queiramos ou não, devido às experiências que passamos e vivemos. Para muitos, esse detalhe é de um esforço descomunal já que muitos vivem em um velório que não acaba, pois, embora tentem, não conseguem enterrar aquele que parece ressuscitar e nos assombrar. Esqueçamos tudo o que passamos e viveremos e seremos como um bebê recém-nascido. Sem lembranças (nem vou entrar nos detalhes técnicos das possibilidades ou não disso) de um passado recentíssimo. Um ser se formando e à medida que é marcado e lembra dessas marcas, vai se construindo quem é num ciclo interminável de marcas e lembranças.
Pensar no passado não para ficar preso nele, mas, como uma tentativa de rever onde estamos, como chegamos aqui e como poderíamos construir nosso futuro que será futuramente nosso passado.
Não dá para sermos desmemoriados. É preciso descongelar nossas memórias, trazê-las à tona, com todos os percalços e sensações que venham juntos. Para “ressuscitar quem morreu”? Não necessariamente. Para nos lembrar que somos o que somos e construímos quem somos de forma antitética, ou seja, contrário a algo vivido e experimentado. Usei a expressão “descongelar” porque para muitos lembrar abruptamente esse passado para se reconhecer no presente plenamente é doloroso o suficiente para viver num esforço inimaginável de esquecer aquilo que não se esquece.
Lembrar esse passado para não repeti-lo. Lembrar esse passado para demonstrar que não somos quem fomos, ou quem os outros gostaríamos que fossêmos, ou ainda para sermos o que um dia já fomos ou até mesmo aquilo que nem imaginamos que podemos ser.
Lembrar um passado para nortear o caminho que fizemos que nos fizeram chegar onde chegamos. Lembrar que um dia as coisas foram do jeito que gostaríamos, ou quem sabe, de um jeito que jamais imaginaríamos. Lembrar que podemos ser diferentes no presente construindo aquilo que será no futuro nosso passado: dignos de serem lembrados, passados que futuramente trarão novos nortes de como iluminamos nosso caminho atual construindo uma identidade que, de alguma forma, trará uma satisfação por aquilo que nos tornamos.
Lembrança, poderosa ferramenta da construção de futuras realidades. Ainda que traga ansiedade e expectativas que não sabemos o que fazer com elas, importante viver essa experiência se pretendemos ver quem fomos e reconstruir quem seremos. Ai sim, um presente cheio de emoção, expectativa, aventura e significado aumentando o repertório de reações que representam quem somos nesse momento.
Boa lembrança a todos. Bom descongelamento a todos. Boa construção de futuros passados, nesse presente repleto de interações inesperadas conosco mesmo.

Psicólogo João Geraldo de Mattos Neto
Contato: joaogeraldo.psi@gmail.com

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