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Política
Ana Karla Costa - REPORTAGEM LOCAL
Arquivo - FE
Serys afirma que o PT não pode ser feudo do grupo de Abicalil, que, com extrema voracidade, quer o controle de tudo

Pré-candidata à reeleição, a senadora Serys Marli (PT) revela nesta entrevista à Folha do Estado que a decisão do deputado federal Carlos Abicalil em disputar o Senado Federal provocou uma profunda divisão dentro do partido. Abicalil, que é presidente do PT em Mato Grosso, na avaliação da parlamentar, deveria atuar como magistrado, buscando o fortalecimento do palanque da pré-candidata Dilma Rousseff à Presidência da República. Ao contrário disso, segundo Serys, a postura dele é divisionista e pode trazer “prejuízos irreparáveis” ao desempenho do PT nas eleições 2010 e de todo o arco de aliança. Além disso, Serys afirma que o PT não pode ser feudo do grupo de Abicalil, que, com extrema voracidade, quer o controle de tudo.

Folha do Estado - O deputado federal Carlos Abicalil oficializou sua pré-candidatura ao Senado Federal. Quais os critérios que o PT vai utilizar para definir seu candidato a senador?
Senadora Serys - Essa decisão do deputado Carlos Abicalil e de seu grupo político me deixou perplexa, porque, ao se lançar candidato, Abicalil, que é presidente do PT em Mato Grosso, não hesita em provocar uma profunda divisão no Partido dos Trabalhadores em nosso Estado, justamente ele que neste processo deveria atuar como magistrado, buscando o fortalecimento do palanque da nossa pré-candidata Dilma Rousseff.


Folha do Estado - Como se dará a discussão da candidatura ao Senado dentro do diretório estadual do PT?
Senadora Serys - Essa discussão, agora, está colocada para o partido e creio que, com muita serenidade, será feita uma reflexão e uma discussão coerente com nossa história e que nos ajude a impedir que esse verdadeiro atentado se concretize, evitando que o PT, em frangalhos, caminhe para um desastre eleitoral e político dentro de Mato Grosso, com reflexos em nível nacional e dos quais todos seremos vítimas. Reitero a posição que disse a ele, minha intenção é o Senado. Outra candidatura, como para a Câmara dos Deputados, não faz parte dos meus planos.


Folha do Estado - Como a senhora avalia a afirmação do deputado Abicalil, de que a candidatura dele ao Senado tem mais viabilidade do que a sua?
Senadora Serys - Fiz o meu mandato por inteiro e tenho meu trabalho reconhecido dentro e fora do PT, dentro e fora de Mato Grosso, pelas mais diferentes categorias de trabalhadores que defendi de forma intransigente e pelas quais tenho sido homenageada em todos os rincões do país. Minha trajetória no Senado é reconhecida pela classe política e pela sociedade de forma geral. Considero que estou mais preparada do que nunca para disputar novamente ao Senado. Sou a primeira mulher a ser eleita senadora pelo PT de Mato Grosso e a primeira mulher, em nosso país, a assumir a vice-presidência do Congresso Nacional, e tenho muito orgulho disso, porque foi com a força de nossa militância e com a vontade do povo que cheguei até aqui. Estou entre os dez parlamentares que apresentaram projetos mais relevantes para o Brasil [conforme a ONG Transparência Brasil]. Tenho reconhecimentos internacionais pela minha atuação, seja na área da mulher, meio ambiente ou política. Portanto, tenho convicção que estou mais do que credenciada para essa disputa.


Folha do Estado - O deputado Abicalil já declarou que tem maioria do diretório estadual, portanto, sua candidatura ao Senado está praticamente confirmada. Como a senhora vem lidando com este tipo de provocação?
Senadora Serys - Ao longo da minha vida, tenho construído minha carreira política de maneira limpa, companheira, sem ferir a ética, pautada no debate franco e aberto. Minha história de luta, dentro e fora do Partido dos Trabalhadores, mostra que não sou uma mulher de fugir da disputa. Sempre que fui convocada, fiz a minha parte, são 22 anos construindo o PT, em meio a todo tipo de dificuldades, e agora espero, no mínimo, respeito. No entanto, estou muito tranquila em relação a isso. Lutarei até o fim para garantir o direito, não só meu, mas de todos os companheiros e companheiras do PT, por espaço e oportunidades iguais. Nosso partido não pode ser o feudo de um grupo que, com extrema voracidade, tudo quer para si.


Folha do Estado - A senhora sente que o grupo político do governador Blairo Maggi e do vice Silval Barbosa (PMDB) tem preferência pela candidatura de Carlos Abicalil ao Senado?
Senadora Serys - Não. Já recebi muitos telefonemas e mensagens de apoio de todos os grupos e partidos, inclusive do PMDB e do PR. Estes e outros partidos que fazem parte de nossa base aliada mostram-se como fortes e importantes aliados do presidente Lula e do PT. Não acredito, e não vejo motivo para que haja essa preferência.


Folha do Estado - Existe alguma posição da direção nacional do PT de que os senadores com mandato teriam preferência para disputar a reeleição?
Senadora Serys - Em tese, no PT, qualquer pessoa pode pleitear candidatura a qualquer cargo. No entanto, a reeleição é natural quando o mandato é reconhecido e respeitado. Outro fator importantíssimo é que a escolha sirva aos objetivos maiores do partido e da sociedade, de garantir, nas urnas, a continuidade do governo vitorioso do presidente Lula.


Folha do Estado - A senhora vem recebendo manifestações de apoio de lideranças políticas e empresarias de vários partidos. A senhora acredita que isso será levado em conta pelo PT no momento em que definir seu candidato ao Senado?
Senadora Serys - Claro. Muitos prefeitos e vereadores estão ligando, enviando ofícios, manifestando por meio da imprensa e deixando seu recado, assim como entidades de trabalhadores e de empresários, organizações de mulheres, juízas, promotoras, organizações sociais. Enfim, tenho recebido muito apoio público e isso me dá forças e incentivo para caminhar no meu propósito de ser candidata à reeleição. Respondendo à sua pergunta, em se tratando de eleições, dá para ignorar as manifestações de tão diversos segmentos da população?


Folha do Estado - Durante esse processo que antecede a escolha do candidato a senador do PT, a senhora se sentiu desrespeitada em algum momento, principalmente pelas lideranças ligadas ao deputado Carlos Abicalil?
Senadora Serys - Não houve um ataque à minha pessoa, mas houve, sim, um ataque, uma tentativa de desqualificação da mulher na política. Os deputados Ságuas e Alexandre César, além de fazerem um debate público, que deveria primeiro ter sido interno, foram desrespeitosos na medida em que utilizaram expressões com grande carga de preconceito, como “é hora dela voltar para casa”, “cuidar dos netos” e “a fila anda”. Isso é um desrespeito claro, não só a mim, mas à mulher brasileira. Isso tudo atenta contra uma militante histórica, uma mulher e, por conseguinte, contra as conquistas de todas as mulheres, já tão poucas na política.


Folha do Estado - É verdade que a senhora tem a preferência do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff na disputa pelo posto de candidato ao Senado pelo PT de Mato Grosso?
Senadora Serys - Há um reconhecimento declarado, tanto do presidente Lula como da ministra Dilma, do trabalho que venho realizando no Senado em prol da governabilidade e também dos trabalhos desenvolvidos por mim no parlamento, em especial os que dizem respeito às mulheres e ao meio ambiente, e acredito que esse reconhecimento, não só feito pessoalmente a mim, mas também externado publicamente, é a melhor manifestação de apoio.


Folha do Estado - A senhora se arrepende de ter ficado ao lado do senador José Sarney (PMDB) durante a crise do Senado? Isso não desgastou sua imagem junto ao eleitorado mato-grossense?
Senadora Serys - Não fiquei ao lado de ninguém, apenas cumpri minha obrigação de segunda vice-presidente do Senado Federal, seguindo o regimento da Casa, o que, aliás, foi referendado pelo STF. Minhas ações no exercício da presidência do Senado foram imparciais e jamais fiz juízo de valor sobre as decisões tomadas, eram obrigações de ofício e não ações de foro íntimo. Continuo combatendo a corrupção, atuando com ética e com extrema seriedade com a coisa pública.


Folha do Estado - A pesquisa eleitoral não seria o critério mais justo para definir o candidato do PT ao Senado?
Senadora Serys - Acho que muitos fatores têm que contribuir para essa escolha. A pesquisa é apenas uma delas. Defendo inclusive a realização de prévias.


Folha do Estado - Com relação às alianças para as eleições deste ano, a senhora acredita que o caminho do PT é confirmar a aliança com o PR e o PMDB ou existe possibilidade de uma composição com o PSB de Mauro Mendes?
Senadora Serys - O PT ainda irá discutir os detalhes das alianças estaduais, mas também seguimos uma orientação nacional, com vistas à candidatura à Presidência da República. No entanto, tudo caminha para que a aliança PR e PMDB prevaleça, afinal, foram partidos que estiveram apoiando nosso governo durante os oito anos.


Folha do Estado - A vinda da ministra Dilma Rousseff a Cuiabá nesta terça-feira (23) ajuda a fortalecer sua pré-candidatura?
Senadora Serys - A vinda da ministra fortalece o PT, as ações de governo em Mato Grosso, as mulheres do nosso Estado e, consequentemente, as candidaturas femininas. Sinto-me fortalecida sim.


Folha do Estado - O manifesto pró-Serys que está sendo elaborado e será entregue para a direção estadual e nacional do PT ajuda a fortalecer seu nome ao Senado?
Senadora Serys - Claro. Qualquer movimento é bem-vindo e fortalece nosso nome, além de nos dar incentivo a continuar a caminhada. Mato Grosso terá, mais uma vez, uma mulher candidata ao Senado. 

Publicado em : 22/02/2010 às 09:20
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